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Estilo & tendência
Sopro de criação
Há muitos séculos os vidros de Murano encantam o mundo. Mas essa arte fascinante, que por tempos buscou-se em vão manter ilhada e exclusiva, conquistou profissionais que a executam também no Brasil com extrema habilidade

Texto: Laura Rocha Fotos: Divulgação

Impossível desvincular o delicado e mágico trabalho de um maestro vetraio (mestre vidreiro) Muranese do sopro de Deus que deu vida a Adão. Assim como na criação divina, a quase imperceptível quantidade de ar enviada ao centro de uma porção de massa vítrea incandescente é capaz de imprimir alma e personalidade a objetos inimitáveis em beleza e perfeição.

Quem conhece um verdadeiro vidro de Murano ou já acompanhou a criação de uma peça não achará a comparação exagerada. É preciso técnica refinada, rapidez e habilidade artística para manusear a massa descoberta há 4mil anos.

E que desde já fique bem claro: Murano mesmo, só o que é feito lá na ilha, pois refere-se à procedência; as peças executadas fora desse território apenas podem utilizar as mesmas técnicas e seguirem o estilo, mas são genérica e erroneamente denominadas murano.

Sempre atuais e reverenciados, diversos vidros de Murano produzidos entre 1915 e 2000 foram tema da exposição Mar de Vidro, realizada em outubro passado no Museu da Casa Brasileira (SP). Alguns nomes de casas históricas e importantes na produção vidreira da ilha puderam ser apreciados, como os de Cenedese (acima), no centro de mesa de vidro submergido, peça de 1960 assinada por Aldo Fuga e Ítalo Pustetto.Ao lado, no alto, os jarros Pez, de vidro policromático em tiras, Chama, de vidro rosado, ambos submergidos em cristal, e Coruja, de vidro âmbar claro submergido, datam de 1950 , criação dos maestros vetraios da cooperativa Covem. No centro, garrafas da série Marinas, da casa Salviati, peças de vidro colorido submergido em cristal, criadas por Luciano Gaspari em 1965. Abaixo, par de maçanetas de vidro coral revestido, criação de Archimede Seguso e Bepi Santomaso do ano de 1947 para a casa Seguso Vetrio D’Arte. Na página anterior, o prato com peças policromáticas em base de ferro, criação de 1999 de Isabella Bertocco Smania, mostra que a nova escola de Murano segue fielmente a tradição de beleza, mesmo imprimindo nova leitura à produção vidreira.

Essa pequena ilha italiana, distante 1,2km da majestosa Veneza, passou a guardar desde 18 de novembro de 1291 a arte de fabricação de maravilhosos vidros, conhecimento aprendido com os romanos, que o obtiveram com fenícios, egípcios e mesopotâmicos, sendo aprimorada pelos venezianos, cujo primeiro registro histórico data do ano 982.

Um decreto do então Conselho Maior, que elegia os magistrados e redigia as leis vigentes na República Sereníssima (como Veneza era denominada), ordenou a destruição de todos os fornos existentes e sua mudança e confinamento em Murano – dizem alguns que para preservar Veneza, construída em sua maior parte sobre madeira. Outros defendem que o verdadeiro interesse era manter exclusiva a técnica de fabricação dos mais variados e originais objetos de vidro, comercializados em todo o mundo conhecido de então e fonte de renda inesgotável para a região. Juntamente com os fornos, os mestres vidreiros e suas famílias foram transferidos para Murano, recebendo tratamento e honrarias típicas da nobreza.

Pertence aos muraneses, precisamente a Ângelo Barovier, o crédito da descoberta, no século XIII, do vidro cristalino transparente e perfeito, hoje conhecido simplesmente pelo nome de cristal, que também deu origem ao espelho, ainda que as peças coloridas, multicoloridas e feitas de murrina sejam sempre associadas a eles em primeiro lugar.

A atividade vidreira da época submetia-se à associação Arti, que regulamentava o acesso à profissão e à associação somente a quem tivesse ao menos 14 anos, freqüentasse uma escola de mestre vidreiro, fosse aprovado em um exame prático e jurasse respeitar o regulamento.

Alguns anos e novas técnicas descobertas depois (como a filigrana e o vidro branco opaco que lembrava a porcelana chinesa), o vidro de Murano era símbolo de status e objeto de desejo em todo o mundo. Em 1525, o século de ouro da produção vidreira de Murano, um novo estatuto da Arti estipula castigo severíssimo ao mestre que deixasse a ilha e quebrasse o juramento de manter segredo sobre seus conhecimentos. Mesmo assim, o conhecimento técnico espalha-se pela Europa, difundindo, a fabricação de vidro ao estilo de Veneza.

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