Dinastia de mestres
No ano de 1605 foi compilado um Livro de Ouro com o registro histórico dos mestres vidreiros da chamada Magnífica Comunidade Muranese. Pouco depois, em 1638, a associação estabelece que apenas as famílias integrantes desse livro poderiam fabricar vidros com a cana de sopro. Até os dias de hoje, muitos nomes constantes no livro têm seus descendentes dedicando-se a arte, que nas década de 1950 e 1960 teve um novo apogeu mundial. Uma família registrada nesse livro chama a atenção dos brasileiros: Seguso. Dotada de uma habilidade que se pode dizer genética, a família gerou muitos mestres vidreiros. Um, em particular, inconformado com o horizonte que se desenhava limitado para sua vida, saiu de Murano a convite da Cristais Prado, em São Paulo, no início da década de 1950, e nunca mais deixou o Brasil: Mario Seguso. Excelente desenhista e gravador premiado, formado pelo Regio Istituto d’Arte de Veneza, após dois anos como gravador e designer de cristaleria de mesa em São Paulo, Mario Seguso partiu em busca de estabelecer com o vidro uma relação mais plena, que lhe permitisse explorar a criatividade e expandir a veia artística.
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| Produção de peças na Oficina de Fogo e Arte, na fábrica da Ca D’oro – o nome da empresa, que significa “casa de ouro”, homenageia o famoso palácio veneziano recoberto de mosaicos de vidro com lâminas de ouro puro. Séculos de tradição, passada de geração a geração, mantém viva a técnica do soffiato (sopro) e a utilização de tesouras, pinças e forcella na produção de verdadeiras obras de arte, fruto da criatividade e habilidade de artesãos apaixonados pelo vidro e suas possibilidades. |
Após algumas aventuras na Amazônia, montou um ateliê próprio, a Oficina de Fogo e Arte, onde passou a gravar temas folclóricos brasileiros em peças disponíveis no mercado, pois acreditava que o Brasil devia reconhecer seus próprios valores e não os vindos do Exterior. Algum tempo depois, associou-se aos irmãos Alamiro e Vittorio Ferro, também de reconhecida família de Murano, e ao cunhado, Pietro Toso, vindo especialmente da Itália para participar do empreendimento, com os quais fundou em 1965 a Cristais Ca’Doro, na cidade mineira de Poços de Caldas. Na década de 1980, os filhos passam a participar do negócio, ocupando o lugar dos irmãos Ferro e do cunhado, que voltaram à Murano.
O vidro produzido na Ca’Doro segue os preceitos do fabricado em Murano e tem a vantagem de o Brasil contar com uma excepcional qualidade e grau de pureza de areia, testada na Estação Experimental do Vidro, em Murano. Mas Mario Seguso adequou e aprimorou os conhecimentos de seus antepassados em busca de um resultado com identidade brasileira marcante e exclusiva. A ausência de modismos e influências caracterizam sua obra, que retrata os valores brasileiros, a cultura, e a natureza soberba em cores e formas caprichosas. Reconhecido internacionalmente, tem seu trabalho hoje exposto em galerias, museus e institutos ligados à arte em vidro em diversas partes do mundo. Convidado freqüentemente a ministrar palestras e cursos, Mario Seguso faz o Brasil ser respeitado por sua tradição artístico vidreira.
“Quando eu digo ‘vidro brasileiro’ pode a princípio parecer demagogia”, afirma. “Mas o que eu digo pode ser visto na minha obra, que reproduz fenômenos e maravilhas da natureza brasileira: os cipós que envolvem as árvores das florestas, os peixes que estão pulando como na Piracema, as cores da Amazônia, formatos que reinterpretam e reproduzem a arte indígena em vidro. Basta ver para entender que nossa produção é legitimamente brasileira, capaz de se nivelar em beleza e qualidade aos vidros fabricados nos mais renomados centros mundiais, e com personalidade própria”.
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A técnica italiana ganhou traços da cultura brasileira, unindo requinte a um toque de humor
Com linguagem própria e inspirado nas belezas naturais e raízes brasileiras, Mario Seguso, da Ca’Doro faz questão de assinar suas peças com a marca “Seguso, do Brasil”, apresentando o país como berço de sua identidade artística, como mostram os trabalhos a seguir: 1- Labirinto, vaso de vidro âmbar; 2 - Vaso âmbar com aplicação; 3 - Abelha, vaso leitoso tricolor; 4 - Baiana, vidro opaco com degradê de cores e gravação; 5 - Ânfora, vidro vermelho com aplicações de vidro preto; 6 - Piracema, vidro azul e cristal; e 7 - Beijo, cristal e vidro azul. |
Tradição brasileira
Mário Seguso não foi o único italiano a deixar o país em busca de novos horizontes e formar profissionais no Brasil. Também na década de 1950, Aldo Bonora, recém-casado, após aprender o ofício em Murano, transferiu- se para o Brasil e, utilizando a estrutura de uma fábrica de vidro desativada, em Poços de Caldas, começou a produzir peças em estilo murano. Angela Cristina Molinari, responsável pelas vendas, levou seus pequenos irmãos Antonio Carlos e Paulo Molinari para conhecer a produção do vidro, em 1957. Encantados, os meninos passaram por todos os setores da fábrica e logo estavam produzindo pequenos bichinhos e peças de colares, absorvendo o conhecimento do mestre italiano. Aldo Bonora percebeu o talento da dupla e investiu em seu trabalho, permitindo- lhes liberdade para criar e fazer coisas novas.
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