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Estilo & Tendência
Transformação da Natureza
Matéria-prima mais comum e utilizada desde a pré-história, o barro é protagonista principal da primitiva arte da cerâmica, que até hoje é estimada por arqueólogos, colecionadores e pessoas que apreciam sua beleza e simplicidade

Texto:Laura Rocha

J.Vilhora
Gi Velloso

BETH COE MAEDA, Ceramista

“Um forno e montanhas de argila é o que se precisa para iniciar a maravilhosa aventura de ser ceramista!”

A palavra cerâmica deriva do grego keramos, que significa “coisa queimada” e hoje se refere aos produtos não-metálicos endurecidos pelo fogo. O termo cerâmica engloba as indústrias de olaria, faiança, porcelana, produtos refratários, isoladores e outros trabalhos com barro - sejam objetos utilitários, decorativos ou artísticos, como a escultura.

“Não se sabe como e quando o homem descobriu que, pela ação do fogo, os objetos feitos desta matéria, tão abundante e de fácil acesso, se transformavam em objetos duros e resistentes ao calor e à água”, afirma a artista plástica Beth Coe Maeda, dona de apurada técnica na arte da cerâmica. “O tipo da argila usada e o grau de calor a que é submetida a peça definem a característica técnica do utensílio.”

As aplicações da cerâmica são vastíssimas, desde o industrial à arte, uma vez que ela abrange tanto os produtos aplicados na engenharia nuclear como na cerâmica de mesa, próteses e bioimplantes, substituindo, por exemplo, materiais como a platina. Cientistas estão criando a cerâmica mais dura já feita pelo homem, que imita a madrepérola. Para isso, usam o biomimetismo, que é a imitação de estruturas da natureza na busca de solução para problemas de engenharia.

A ESTANTE de alvenaria da suíte ao lado foi projetada pela arquiteta Simone Tasca para integrar os ambientes com leveza e, particularmente, expor os potes cerâmicos típicos do interior da Bahia (Depósito Kariri), onde o proprietário percorre longas trilhas de jipe e entra em contato direto com a natureza. A forma irregular e a cor envelhecida dos potes aproximam presente e passado, deixando a coleção com ares de relíquias arqueológicas. No piso, a praticidade da cerâmica branca Itagres Recesa. ACIMA, as mãos habilidosas da ceramista Beth Coe Maeda imprimem forma à pasta de argila girada no torno, momento mágico de criação de uma peça de cerâmica. Com extremo cuidado, os detalhes de acabamento são moldados ou esculpidos, como a figura da menina que surge do barro, e aplicados na peça para queima posterior. Resultado de suas pesquisas incansáveis, o detalhe ampliado revela a beleza e o efeito do acabamento obtido com a aplicação de cristais prateados submetidos à queima a gás com redução.

Terracota é o nome dado à argila que apresenta aparência porosa e cor tendendo ao vermelho ou amarelado depois de cozida a até 1.100ºC. “É o barro mais fácil de tornear para um iniciante”, destaca Beth. Com características de porosidade iguais à terracota, mas cor tendendo ao branco, a louça ou faiança é obtida pela queima entre 980 e 1.100ºC de uma mistura moída de argila e matérias-primas. “Muito utilizada na produção de louça doméstica e decorativa, é cozida em duas fases – a primeira chamada chacota ou biscoito e a segunda após a aplicação do vidrado”, explica a ceramista.

De maior resistência e praticamente impermeável, o grés ou stoneware é obtido a partir da queima entre 1.200 a 1.350ºC e tem composição similar à pedra. Durante a cozedura, alguns de seus elementos podem vitrificar a pasta, o que melhora a superfície para o uso doméstico.

De textura fina e dura, a porcelana tem como características ser impermeável, semitransparente - pode ser opaca ou translúcida segundo a composição e a densidade - e de cor muito branca, obtida a partir da queima a até 1.450ºC. “A porcelana é mais difícil de manejar e tornear, pois tem limites críticos de umidade”, lembra Beth Coe, “mas pode associar utilidade e beleza. Além da indústria, onde são produzidos objetos para o dia-a-dia em grandes quantidades, pois ela resiste aos ataques químicos provocados por detergentes e alimentos e aos ataques mecânicos, como utilização de talheres,também é encontrada nos pequenos ateliês de ceramistas que recriam essa arte em belíssimos trabalhos”.

Segundo a artista plástica, outros tipos de pastas de argila merecem ser lembrados, como a pasta egípcia, com as quais a antiga civilização preparava suas próprias contas e amuletos, de uma brilhante cor turquesa obtida pela reação entre a pasta e o óxido de cobre em uma única queima a 1.000ºC.“Por não se prestar à fabricação de objetos funcionais, a pasta egípcia é usada quase exclusivamente para efeitos decorativos. Já o paperclay, nome dado à pasta de argila que recebe adição de massa de papel, permite a confecção de peças maiores e mais leves, sendo mais usada para esculturas. É bastante plástica, fácil de trabalhar e permite o acréscimo de novas partes ao trabalho”, explica. “Por fim, a bone china ou porcelana de ossos, uma pasta de preparação especial, fina, translúcida, branca e extremamente dura, qualidades que se devem ao uso de um dos seus componentes, o osso calcinado, que atua como fundente da pasta, tornando-a uma substância vítrea e dura a temperaturas superiores aos 1.250ºC.”

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