Em um sítio distante, Monteiro Lobato criou a atrevida Emília, boneca de pano, de cabelos revoltos, olhar curioso e atento, cheia de filosofias e muito, muito faladeira. Em um mundo menos fantasioso, mas não menos colorido, a artista plástica Patrícia Henriques encontra em Emília e no jeito de ser da boneca as características e sabedorias necessárias para criar seu trabalho.
Na filosofia Emiliana mais admirada pela artista, o mundo é um rosário de piscadas e cada pisco é um acontecimento. Patrícia começou a piscar há 33 anos e, num desses dias, piscou para a arte. "Descobri que queria as artes plásticas ainda na escola, pois sempre gostei de desenhar. Foi uma decisão muito ingênua", recorda a artista.
Porém, não foi em uma piscada que Patrícia virou ceramista. Primeiro mudou-se da casa dos pais. Mais tarde, descobriu o grave problema com alergias que a fizeram desistir da fotografia e das telas. "Não fui eu quem escolheu a cerâmica. Foi ela quem me escolheu", brinca. Antes de pôr a mão na massa, ela ainda seguiu a carreira teórica. "Durante a faculdade trabalhei no Liceu de Artes e Ofícios e na Pinacoteca."
Entre uma piscada e outra, ela decidiu voltar para a oficina. "Nessa época, fui trabalhar em uma livraria para juntar dinheiro e começar a fazer meu próprio trabalho", conta.
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NA PÁGINA ANTERIOR, a Vírgula o primeiro trabalho com frases de Patrícia. Abaixo, a árvore cheia de movimentos, feita de argila tabaco, ganha vida e cor com pássaros feitos de argila marfim. Já nesta página, as irmãs passarinhas Nina e Pituca, levam um delicado desenho de esmaltes, pintado sempre após a estrutura cerâmica já ter passado pelo forno. |
Espontânea, Patrícia faz caras e bocas para contar suas histórias, cheias de finais felizes, como nos contos de fadas
Enquanto juntava dinheiro, Patrícia reuniu outras duas paixões: a literatura infantil e a poesia. "Estava cansada de trabalhar na seção de arte e pedi para ir para a de literatura infantil. Foi quando descobri a riqueza que há por detrás dessas histórias", fala a artista. São elas que dão o toque lúdico e fantasioso à cerâmica de Patrícia. Segundo ela, a infância tem uma liberdade de sentimento que não possuímos mais depois.
Assim também foi com a poesia, presente em muitos mimos. "É por isso que aparecem reticências, parênteses... são esses detalhes que deixam tudo mais afetuoso", explica a artista. "A ideia de que mais gosto é a de que crio uma peça não só útil, mas que tem uma mensagem. É interessante quando você mostra e as pessoas dão risada, se emocionam, pois elas deixam de esconder seus sentimentos", comenta.
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